Loading

Cassiopeia Santa Rita

Cárcere

Boca, a barreira dos sentimentos, a represa da poesia,

que é tolhida do alívio de cantar o meu amor,

que fecha-se como mausoléu de quem ainda vivo está.


Braços, que, resignados, colam-se a mim,

exauridos da inércia que lhes foi duramente imposta.

Querem estender-se, poder chegar a ti e fazerem a ponte entre meu corpo e o teu,

ou serem talvez o abrigo que protege a tua alva pele desta dura vida que a açoita.


Mãos, gélidas prisioneiras das circunstâncias,

Esguias mensageiras que só encontram alento quando entrelaçadas nas tuas,

viajantes cativas que aspiram percorrer as novas terras do teu ser.


Coração.

Vítima derradeira da Realidade, o poeta dolorosamente preso por ser terrivelmente livre.

Dei-te meu coração e não o queres.

Agora não é meu e nem teu, é de si próprio, vagando por esse infinito limbo existente entre tua alma e a minha.

O coração só é livre quando preso pelas amarras do amor,

e o meu coração só é feliz quando bate em conjunto com o teu.


Diz-me que libertas minha boca com teu beijo,

Descativa meus braços com teu enlace,

desencarcera minhas mãos com o teu toque,

e aperta meu coração contra o teu de forma que sejamos, tu e eu, só um,

eternamente libertos pelo amor que nos prende.